Ao Passares pelas Águas…

 

Depois de um longo período sem funcionar o Projeto Luzeiro, chega o grande dia de sua missão inaugural. Na mala, medicamentos, materiais de evangelismo, de aulas para prevenção de doenças, amor, empatia e muitas sensações… o prazer pela obra medico-missionária, pelo desbravamento de uma região afastada para levar Cristo a outras pessoas misturava-se com a responsabilidade de navegar por locais desconhecidos, num sinuoso rio com pedregais em tempo de seca.

Dias antes colhemos informações com outros comandantes e moradores interioranos na cidade e estávamos para partir com uma preocupação na navegação; teríamos que passar por dois trechos de grandes pedregais submersos e existia um só canal. Ao saber disso, correu um frio por todo corpo em imaginar a embarcação colidindo e naufragando em um destes pedregais, um certo temor, sensação de dúvida e incapacidade fizeram morada em mim.

Na semana que antecedia nossa saída essa sensação era constante dentro de mim, mas procurei guardá-la comigo. Até que no dia antes de sair quando fazíamos o culto, lemos que não podemos nada com nossas forças, mas se nos entregarmos verdadeiramente a Deus, Ele nos capacitaria, nos guardaria e guiaria. Partimos então para nosso destino, não sentia dúvida mais, estava atento e confiante.
Quando chegamos perto do primeiro pedregal, diminuí a força da máquina da embarcação e percebi pela sonda que estava ficando cada vez mais raso o leito do rio, a sonda apita avisando aguas rasas. Guinei a embarcação para boreste e ficou mais raso, então guinei rapidamente para bombordo e mais raso ainda ficou, e um frio me cortou todo por dentro!

Clamei em meu pensamento: – “me capacita, Senhor!”. Decidi então pôr a embarcação no meio do leito do rio, tirei força total da máquina, a sonda parecia apitar mais alto e mais forte e a profundidade cada vez mais rasa, o coração acelerado, não sabia o que fazer e novamente em pensamento implorei a Deus: -“me capacita, Senhor!”. Alguns segundos depois, estávamos baixando velocidade de 2 milhas para 1 milha, quase parando e delicadamente a proa do barco sobe numa pedra…

Respirei fundo, engoli seco, e num piscar de olhos agradeci, mas pedi novamente: – “me capacita, Senhor!”. E a água foi empurrando de volta pra traz a embarcação. Uma voadeira aparece descendo o rio e acaba por mostrar onde é o canal de passagem. Guinamos para aquele lado e seguimos, seguros pela mão de Deus e na certeza de que Ele não nos deixou colidir com aquela rocha. Mas não acaba ai…

Dias depois, quando descíamos o rio parando de comunidade em comunidade, fazendo consultas, palestras e evangelismos, chegamos de novo naquele pedregal, mas agora sabendo onde passar, pois Deus havia mostrado. Paramos numa comunidade para continuar os trabalhos. Durante uma visita, quis contar o milagre vivido ao passar ali, e o morador daquela casa me retrucou atônito e com os olhos arregalados dizendo que era impossível navegar pelo meio do rio, onde eu disse que passei antes de subir naquela pedra. O pedregal se estende por mais de 150 metros e nem pequenas lanchas ou canoas passam por ali, só tinha um canal para passar e eu só fui para este depois de ter subido naquela rocha.

Quando eu achava que Deus nos poupou de bater fortemente naquele rocha, Ele já havia nos poupado muitos metros atrás, quando pelo Seu poder nos fez passar sobre aquelas rochas.

 
 

Sobre o Autor
Fernando Silvestre é natural de São Paulo/SP, e é o comandante da lancha Luzeiro XXX, que trabalha no município de Carauari, no rio Juruá.

 

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