Chega de Jacarés

Flávia Guimarães Luzeiro XXX Leave a Comment

 

Na segunda missão da Luzeiro XXX, passamos por uma região onde tínhamos que entrar de bote em um igarapé até chegar a comunidade do Bacaba. Eu sempre fui uma pessoa medrosa, mas nunca tinha sentido tamanha adrenalina de uma vez só; Até que um dia precisamos voltar da comunidade ao anoitecer. Aventureiros como são (“exigência” pra quem mora em um barco), todos vinham empolgados para “focar” Jacarés, menos eu! Baixei minha cabeça e orei silenciosamente: “Senhor, eu não sabia que tinha medo de Jacaré, por favor, me acalma e afasta esses animais do nosso caminho para que cheguemos em paz até o barco.”

O percurso é feito em 35 minutos dentro do igarapé, só que o igarapé estava com as margens cheias de grandes Jacaré-Açu, a maioria deles com mais de 4 metros! Enquanto todos se divertiam com o tamanho e a quantidade de Jacarés que focavam, eu ia todo o caminho com a cabeça baixa, orando. Passados os 35 minutos mais longos da minha vida, minha oração foi respondida. Nossa missão do mês de Setembro aconteceu justamente no mesmo percurso de comunidade, descendo o Rio Juruá; só que dessa vez paramos e atendemos na baixada.

Em cada comunidade atendida eu perguntava como está o igarapé de Bacaba, e respondiam que estava baixo (que quer dizer bem seco). Eu ficava pensando como seria passar novamente por aquele percurso com tantos jacarés e orava durante toda a missão, “Senhor, por favor, afasta os jacarés.” No dia que chegamos na boca do igarapé percebemos o que as pessoas diziam; ele realmente estava muito seco, a entrada bem mais estreita que da última vez; e eu indagava “Senhor, imagine como está o percurso? Me ajuda tirando esse medo de mim, eu confio em Ti.”

Na primeira aventura até a comunidade vimos alguns jacarés nas margens tanto na ida quanto na volta. O problema era que o igarapé estava tão seco e cheio de troncos que o bote não conseguiria passar nos próximos dias e teríamos que entrar de canoa!Pra uma pessoa medrosa e que só andou no máximo 2 vezes de canoa e 10 minutos cada vez; claro, eu estava apavorada, ainda mais com aqueles jacarés na margem de igarapé muito seco, além de que o percurso que fazíamos anteriormente em no máximo 35 min se tornara aproximadamente 1h 30min. Ouvi comunitários dizendo (não sei se pra me fazer medo) que os Jacarés grandes iam pra cima das canoas e tinha que ter muita experiência pra se desviar deles.

Quem era o condutor da canoa? Um juvenil de 11 anos, filho da agente de saúde. Eu só conversei com Deus: “Senhor, amanhã vai ser um longo dia, tu sabes o quanto as pessoas precisam ser atendidas, então nos ajuda a chegar naquela comunidade, tu também sabes o quanto eu sou medrosa, só queria que tu tirasses esse medo de mim.” Foi quando ouvi lembrei de Josué 1:9. Peguei minha bíblia e me lembrei o quanto aquela passagem significava a resposta de Deus pra mim: Não fui Eu quem lhe ordenei? Seja forte e corajosa, não se apavore, nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus estará com você por onde você andar. Aquelas palavras acalmaram o meu coração!

Nos próximos dias, ir de canoa para a comunidade foi uma aventura muito boa; nesses dias, a quantidade e o tamanho dos jacarés que apareceram não se comparava aos da primeira vez, eram todos pequenos, no máximo 2 metros. E eu ia todo o caminho, orando e agradecendo a Deus porque em meio ao medo, quando clamei por Ele, Ele não só me respondeu a oração dando coragem, como também diminuindo a quantidade e o tamanho dos Jacarés; me fazendo ainda entender que mesmo nas pequenas coisas, quando entregamos e confiamos totalmente NEle, Ele estará sempre pronto a nos ajudar, afastando e diminuindo o tamanho dos “Jacarés” para que possamos cumprir os Seus propósitos. O campo missionário tem sido benção em vários sentidos na minha vida, principalmente sentir Deus bem perto de mim.

 
 

Sobre a Autora
Jemima Cunha é natural de João Pessoa/PB, e é enfermeira na lancha Luzeiro XXX, que trabalha no município de Carauari, no rio Juruá.

 

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