Marcas do Amor

Flávia Guimarães Luzeiro XXX Leave a Comment

 

Leidiane é uma menina de 10 anos que conhecemos na comunidade do Roque, em Carauari. No segundo dia de atendimento recebemos a Leidi com uma queimadura de 2° grau extensa na região da coxa direita (bolhas rompidas, alguma pomada em cima e secreção que descia na perna). Minha primeira pergunta foi “O que foi isso?” e ela me explicou que foi um acidente em casa com óleo quente. Ela mal conseguia estender ou flexionar a perna, estava andando com dificuldade e sentia muita dor. Minha segunda pergunta (mental) “Como farei esse curativo sem causar mais dor?” Orei em silêncio e pedi a ajuda de Deus tanto para o atendimento quanto para a escolha dos materiais a usar. Eu disse a ela que seria quase impossível ela não sentir dor. Perguntei se ela acreditava em Deus, ela disse que sim; então a convidei para orar pedindo que aquele procedimento não doesse tanto. Nossa oração foi respondida na hora!

Marquei o 2° curativo para 48h após o primeiro, ela foi chegando com um sorriso no rosto, andando um pouco melhor, e comentou logo que a dor estava diminuindo. Abri o curativo e para a minha surpresa, realmente estava melhor! Naquele dia fiz outra oração silenciosa no meu coração “Senhor, minha vontade é de ficar nessa comunidade até a cicatrização completa, tu sabes que o que estou pedindo é quase impossível porque só temos mais 9 dias nessa comunidade, mas eu confio em Ti, amém. ”

Cheguei no domingo para visitar a comunidade e ela me encontra e diz “Jemima, me empurraram no igarapé (nascente de água preta), mas eu troquei o curativo. ” Naquele momento eu pensei “meu trabalho foi pro lixo”. A ela eu falei, “Você sabe que sua perna pode piorar, não é? ” Ela só balançou a cabeça com os olhos de: eu não sabia. Naquele dia, Katherine (médica) e eu ficamos bastante aflitas, pois era uma missão com poucas doações de medicamentos (quase nada pra falar a verdade). A Kathe se preocupou muito pois se a perna infeccionasse não tínhamos quase nenhum antibiótico.

Na segunda-feira ela veio ao ambulatório com a perna doendo e com um odor que sentimos sem mesmo mexer no curativo. Ao tirar as ataduras, estava ali constatado o resultado da brincadeira no igarapé: secreção esverdeada e fétida. Até então tínhamos decidido em conduta conjunta com a médica não introduzir nenhum antibiótico oral, só local; mas quando ela viu a Leidiane, ela já a acompanhou pra definirmos nova conduta. Ficamos tristes ao ver que o curativo tinha regredido, mas nossa confiança em Deus sempre nos faz enxergar além. Conduta conjunta modificada, marcado para 24 horas a troca e a oração realizada antes dela sair novamente pedindo a Deus que continuasse realizando o milagre.

No dia seguinte, quando ela entrou no ambulatório, o odor já não se sentia e a secreção não passava pela atadura. Faltavam 7 dias para terminarmos os atendimentos ali, será que daria tempo? A confiança em Deus e a oração não deixavam de fazer parte da nossa rotina a cada curativo. Os dias passaram-se e no domingo a troca foi feita pelo ACS, já que ele continuaria fazendo os curativos dela quando não estivéssemos mais na comunidade.

Na segunda a encontrei e disse que na terça trocaria o curativo pela última vez. Ao chegar na casa dela com a Kathe, chamei por ela “Leidiane, vamos trocar o curativo?”

Ela aparece na janela “Precisa levar a atadura?”

“Não, trouxe uma nova pra você.”

E lá vem a menina de sorriso fácil, andando perfeitamente e dizendo “Jemima, eu tirei a faixa agora e olha como está, precisa fazer ainda?”

Quando olhamos para a perna dela, eu e a Katherine não acreditamos – estava totalmente cicatrizada! Não para mérito nosso, mais unicamente de Deus. Ver cada milagre é sentir Deus bem perto de nós!

 
 

Sobre a Autora
Jemima Cunha é natural de João Pessoa/PB, e é enfermeira na lancha Luzeiro XXX, que trabalha no município de Carauari, no rio Juruá.

 

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