Problemas?

Flávia Guimarães Luzeiro XXVI Leave a Comment

 

No campo missionário passamos por vários desafios, seja morando em alguma casa dentro de uma comunidade ou morando num barco sempre viajando. E quando passamos por alguma dificuldade, ou algum empecilho acontece, nós damos nome e sobrenome para o autor disso. Nós atribuímos isso ao inimigo. Sabemos que o objetivo de satanás é atrapalhar a obra,  atrapalhar que o Reino de Deus seja implantado. E quando as coisas começaram a ficar ruins para a gente aqui na Luzeiro, não pensamos diferente.

Na hora a gente sabia que o inimigo estava atrapalhando o avanço do projeto.

Deixa eu explicar melhor. Nosso planejamento era atender 3 comunidades da área indígena Satêre Mawê, começando por Umirituba, passando por Simão e finalizando em Molongotuba.

O barco passava por alguns problemas e por falta de recursos, não conseguíamos resolver todos eles de uma vez. E assim começamos nossa viagem, mesmo o barco não estando 100%. Conseguimos chegar em Umirituba e dois problemas apareceram. O primeiro era a notícia que não poderíamos entrar na comunidade do Simão. Após reunião com o Tuchaua (cacique) da aldeia, ele se posicionou contra os serviços oferecidos através da lancha. Ele não queria a presença da igreja naquele local. Com isso nós precisávamos mudar nosso roteiro. Talvez depois de Umirituba a próxima parada seria Molongotuba. Enfim o segundo problema que apareceu foi o nosso motor de luz que não dava partida e estávamos sem energia. Isso acabou atrasando nosso roteiro, porque foi preciso voltar com a lancha para a cidade. Problema resolvido.

Decidimos voltar para Umirituba, e durante nossa viagem outro problema apareceu. A bomba que refrigera o motor principal estragou. Não conseguíamos ir para frente nem para trás, ficamos um dia parado no meio rio até que conseguimos improvisar uma bomba e assim chegar em Umirituba. Com todas essas dificuldades nós iniciamos os trabalhos. Um belo dia, nosso gerador pegou fogo. Estávamos esterilizando os materiais da odontologia, quando de repente a energia começa a falhar. Quando abrimos o porão da sala de máquinas, estava cheio de fumaça e o gerador estava incandescente. Depois de apagado o fogo começamos a contar o prejuízo. Não poderíamos sair do lugar porque estávamos sem bomba e não tínhamos energia porque estávamos sem gerador. E agora? Continuamos o trabalho mesmo assim.

Após duas semanas eu precisava ir à cidade, e levei comigo as peças que estavam com defeito. O mecânico conseguiu consertar a bomba, e assim a lancha conseguiu voltar à cidade para resolver o problema do gerador. Agora sim, prontos para ir até Molongotuba, já que missão em Umirituba tinha se encerrado.

As surpresas não paravam por aí, durante a viagem novamente um problema com a bomba e com isso tivemos um atraso de uma semana no nosso cronograma. No final das contas a gente só poderia ficar em Molongotuba um mês, visto que no nosso planejamento queríamos ficar pelo menos dois meses. Lá é uma comunidade grande e fizemos amizade com o ACS (Agente Comunitário de Saúde) da comunidade, o Maílson. Quando chegamos lá ele estava bem abatido e falando em se mudar para outra comunidade. Ele já havia recebido alguns estudos bíblicos e era nosso maior apoiador dentro daquela comunidade. A saída dele era uma grande perda para nós.

Como a comunidade era grande eu não daria conta de atender um bom numero de pessoas, por isso nós recebemos uma Missão Salva-Vidas da galera do IDE, grupo missionário de São Paulo. Eles trouxeram mais 4 dentistas.

Durante esses dias a comunidade ficou agitada, tinha culto toda noite, as crianças se divertiam muito, teve atendimento médico, tratamento com produtos naturais e lógico, atendimento odontológico. Quando eles foram embora, boa parte da comunidade se sentiu vazia com a saída da missão, obviamente. Eu subi na comunidade, que estava deserta. Voltava a rotina monótona do dia a dia. Eles estavam tristes. Decidimos então fazer uma programação a noite para tentar animar o povo novamente, mas agora era só a equipe do Luzeiro. Não tínhamos todos os recursos audiovisuais que uma missão com 30 pessoas fornece. Mesmo assim o pessoal cantou e louvou a Deus de forma que eles não tinham feito antes da missão. O próprio ACS contou sua história para mim, os motivos que tinham deixado ele chateado e com vontade de ir embora. Agora, após a missão, ele era outro homem. Não sentia mais tristeza e tinha vontade de ficar em Molongotuba.

Estou contando essa bagunça toda, porque no final das contas, todo esse atraso foi necessário para que o povo Satêre pudesse provar um pouco do Reino de Deus e para que pudéssemos receber o pessoal do IDE. Caso contrário, não teríamos recebido eles. Muitas vezes, não entendemos os planos de Deus. Para nós talvez nem faça muito sentido a forma dEle agir. No entanto, sabemos que podemos descansar quando entregamos tudo em Suas mãos. Isso basta.

Por que Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade. Filipenses 2:13

 
 

Sobre o Autor
Wille Annies é natural de Ponta Grossa/PR, e é dentista na lancha Luzeiro XXVI, que trabalha no município de Juruá, nos rios Solimões e Juruá.

 

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